top of page
Banner_Novo.gif
O Auto da Compadecida - Presepada - Sa Grama
00:00 / 00:00

BRASIL NAS TELAS 

Mapa ENEM.png

Em uma quarta-feira, 8 de julho de 1896, moradores do Rio de Janeiro se dirigiam animados para a rua do Ouvidor. A pressa se justifica pois todos iam conferir a grande novidade: a primeira exibição de um filme no Brasil. Desde esse momento, em que filmes de um minuto foram projetados, já se passou mais de um século, período em que uma ida ao cinema se transforma em uma experiência de lazer aos domingos para famílias, um espaço de reencontro para amigos ou de primeiro encontro para um casal de jovens.

​

No começo, a ida ao cinema era um evento social restrito aos mais ricos. Com o passar dos anos, as salas de exibição foram se multiplicando e o preço dos ingressos tornaram se mais acessíveis. 

​

Infelizmente, ir ao cinema não é uma opção para todos os brasileiros. Nem todos os municípios do país contam com um cinema. Entre as 5.570 cidades no Brasil é possível encontrar 3.189 salas, um terço encontram-se localizadas no estado de São Paulo. Tudo isso deixa claro que ir ao cinema não é uma escolha, mas sim uma possibilidade.*

​

Pensando nisso, o Brasil em cena vai mostrar sobre as dificuldades de fazer filme no Brasil, analisar quais são os incentivos para os cineastas nacionais, contar o que está por trás do gênero de terror, trazer histórias de cineastas que podem estar pertinho de você e descobrir o que de mais legal é produzido no nosso país. Está curioso para descobrir um pouco sobre cinema nacional? Então vai descendo e aproveite.

​

​

*Fontes: 

Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais ( SNIIC) 2016

 Araújo, Vicente de Paula. A Bela Época do Cinema Brasileiro. São Paulo: Perspectiva, 1976

Fonte: Sistema Nacional de Informações

e Indicadores Culturais (SNIIC) de 2016

Texto: Larissa Alcantara

O-Auto-da-Compadecida.jpg

Texto: Helena Tortorelli

vera cruz:

o estúdio do brasil

​O conjunto de estúdios Vera Cruz foi um marco para o cinema nacional. A Companhia Cinematográfica Vera Cruz, foi fundada em 1949, em uma antiga fazenda na cidade de São Bernardo do Campo, em São Paulo. Os responsáveis pela companhia eram o produtor italiano Franco Zampari e o industrial Francisco Ciccilo Matarazzo Sobrinho.  Palco de quase 40 obras, o estúdio ficou conhecido por produções muito importantes como Caiçara (1950), de Adolfo Celi, Sinhá Moça (1953), de Tom Payne, e O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto.


Foi no estúdio Vera Cruz que um ator que estava fazendo muito sucesso na TV ingressou no universo cinematográfico: Amácio Mazzaropi. Ele ficou muito famoso com filmes de humor, e é considerado até hoje um dos maiores humoristas do país.


Após passar por várias crises financeiras, o estúdio acabou fechando as portas em 1954, e se tornou um patrimônio histórico-cultural pelo seu valor artístico. Em novembro de 2019, o Pavilhão Vera Cruz, onde ficava a companhia, recebeu uma exposição comemorativa dos 70 anos desde a inauguração dos estúdios. Confira algumas fotos do evento.

 

Texto: Roberta Calamari

Fotos: Beatriz Cordeiro e Thais Hachul

Notas_músicais.png

O SOM NA TELA

Quantas vezes você já escutou uma música e automaticamente lembrou de um filme?

​

Ao escutar os primeiros acordes da música que embala o filme Central do Brasil, você pode ser invadido por uma intensa melancolia. Mas caso escute Esperando na janela na voz de Gilberto Gil você vá lembrar do filme Eu, Tu e Eles ou de um velho amor da juventude.

​

Isso é porque música pode marcar uma pessoa de diferentes maneiras, trazendo um friozinho na barriga durante um romance, emocionar por recordar uma cena triste e até te levar ao ápice da emoção numa cena de ação. E provavelmente seu cérebro reviveu o mesmo momento que você passou ao assistir um filme após escutar alguma música dele.

​

A doutora em neurociência e psicologia da Universidade Federal do ABC, Thenille Braun, explica que a experiência de reviver aquele momento é porque quando escutamos uma música fortemente ligada aquela memória, as mesmas áreas do cérebro que a formaram serão ativadas. Por isso que durante a produção de um filme a escolha de uma boa trilha sonora é importante. Afinal, ela tem a função de complementar a narrativa, criando um envolvimento maior ao gerar respostas emocionais daquilo que está acontecendo visualmente. 

​

Para prestigiar esse elemento tão importante criamos uma playlist, caso você queira conhecer ou relembrar músicas que embalaram nosso cinema nacional.

Notas musicias 2.png
Fone de ouvido.png
Caixinha de som.png

Texto: Larissa Alcantara

Produção da Playlist: Helena Tortorelli e Larissa Alcantara

ruadotriunfo220_edited.jpg

De Zilda

para Vanessa

A filha de emmanuelle.jpg
a menina e o estuprador.jpg
Ensaio.jpeg
vanessa dublando.jpg

Zilda havia acabado de completar 18 anos e, apesar de ser acostumada com o set de filmagens - fazia publicidade desde os quatro - estava mais nervosa do que o normal. Pela primeira vez gravaria um filme, a pornochanchada A Filha de Emanuelle, com direção de Osvaldo de Oliveira. Na época, esse gênero cinematográfico estava em alta e misturava o bom humor das chanchadas com erotismo.

 

Era uma produção da Boca do Lixo. Conhecida como a Hollywood Brasileira, a Boca ficava na rua do Triunfo, centro da cidade de São Paulo. Era um polo cinematográfico que concentrava boa parte da produção de filmes paulistas. Apesar da variação de gêneros entre terror, faroeste e outros, o local ficou conhecido principalmente por produzir as famosas pornochanchadas.

​

​O Brasil estava em meio à ditadura e ao Cinema Novo, um movimento controlado pelos militares que sofria muita censura. A rua do Triunfo praticava um cinema marginal que não atendia as normas impostas pelo governo e desafiava o poder, utilizando a pornografia como forma de criticar a ditadura. Zilda começou a atuar na Boca do Lixo na década de 1980, quando, após o fim do regime militar, a pornochanchada vivia sua fase mais ousada, com mais cenas de nudez e sexo.

Zilda Cristina era uma jovem tímida. Enquanto não estava gravando, vivia com a cara enfiada nos livros. Tinha sempre um Stephen King ou Sidney Sheldon por perto, suas grandes paixões da literatura. Mesmo sendo introvertida, ela nunca teve problemas com a exposição de seu corpo, principalmente graças ao profissionalismo nas gravações.

 

Zilda explica que parou com o cinema quando começou a onda de sexo explícito, na década de 90. Com um novo formato de sexo real, várias atrizes, junto com ela, resolveram trabalhar apenas em teatro e televisão. “O que eu fazia era o sexo simulado, que você faz de conta que está fazendo sexo só que não (risos).” Mesmo com muita gente no set durante as filmagens, Zilda conta que nunca teve problemas em ficar nua. “Não sei explicar, mas sempre fiquei muito à vontade e nunca precisei de artifícios, como uma ‘bebidinha’. De todos os atores com quem contracenei, ninguém nunca ficou excitado. Era tudo muito profissional.”

 

Zilda estreou no cinema como personagem principal. Ela havia realizado o teste para um papel secundário em A Filha de Emmanuelle, em agosto de 1980. Quando a atriz principal teve um problema, o produtor, Antônio Polo Galante, resolveu chamar Zilda para ocupar seu lugar. Ela lembra com muita animação de sua primeira participação no cinema. Ainda era menor de idade e a equipe teve que esperar para filmar até o dia 4 de setembro, quando completou 18 anos. Estava insegura e tinha receio de não conseguir decorar o texto.

 

“Nos meus primeiros filmes eu fui dublada, porque naquela época o filme não tinha som direto. Pra você fazer cinema na Boca não precisava nem ser atriz, era só ser bonita, ter um corpo bonito. Depois eles dublavam você. Como o primeiro filme que eu fiz, A Filha de Emmanuelle, fez muito sucesso, tinha filas e filas e filas. Eu comecei a prestar atenção em como os atores faziam, sempre fui muito observadora”.

"Pra você fazer cinema na Boca não precisava nem ser atriz, era só ser bonita, ter um corpo bonito."

-Vanessa Alves, atriz e dubladora

Menina de beleza encantadora e uma bela voz, Zilda chegou a fazer parte do grupo musical Sunday. Junto de mais dois integrantes, ela gravou um compacto simples de baladinhas românticas, estilo que estava na moda. Na época, o produtor do disco pediu que ela e sua colega Nancy escolhessem nomes artísticos mais atraentes. Zilda, muito fã da atriz britânica Vanessa Redgrave, decidiu que usaria esse nome para si. O grupo chegou a ir até o programa do Chacrinha para se apresentar, mas não gravou outros álbuns.

​

Depois do fim de Sunday, Zilda, agora Vanessa, chegou a gravar mais dois compactos, mas não estava conseguindo conciliar a vida de cantora - com gravações, shows, turnês - à rotina do cinema. Assim, encerrou sua carreira musical, mas decidiu continuar utilizando o nome que escolheu.

“Quando fui fazer o meu primeiro filme, Antonio Galante, o produtor, achou que ‘Vanessa’ parecia nome de cantora e me batizou de ‘Linda Vanessa’. Mas eu não gostei e, depois do segundo filme, pedi para tirar e deixar só Vanessa. Até que um dia, com o povo me cobrando, acabei optando por colocar o sobrenome Alves, que era meu mesmo.” E assim nasceu Vanessa Alves, uma das musas da pornochanchada.

​

Filha de pais separados, Vanessa fala com muito afeto de sua mãe Irene e conta que ela foi uma grande incentivadora durante toda sua carreira. “Minha mãe sempre me apoiou, meu pai eu não sei, porque ele nunca comentou nada. Mas a minha mãe chegava a ir comigo nas estreias, pegava os cartazes e fazia pôster para colocar no meio da sala”.

​

Com uma certa nostalgia lembra dos colegas de profissão e conta que sempre teve um convívio tranquilo com as atrizes. “Eu nunca tive problema com nenhuma atriz e tenho amizades até hoje como a Patrícia Alves e a Sandra Greice. Para mim, sempre foi muito gostoso, parecia mais com uma família. Principalmente quando a gente tinha que viajar para a praia para poder gravar e chegávamos a ficar um mês juntos”.

​

De todas as parcerias que realizou, a mais marcante foi com o diretor Carlos Reichenbach, de quem fala com imenso carinho. Logo que começaram a trabalhar juntos, Vanessa passou a ser chamada de “musa do Carlos”, ou, como ela gosta de chamar, Carlão. Com ele, chegou a realizar vários longas, como Anjos do Arrabalde, que acabou lhe rendendo um prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival de Gramado.

​

“O Carlão me chamou pra fazer um papel em um filme dele. E aí que começou a minha história com o Carlão, fiz acho que cinco filmes dele. Ganhei o Kikito, no 15º Festival de Cinema de Gramado, como melhor atriz coadjuvante em Anjos do Arrabalde e ganhei governador do Estado também pelo mesmo papel. Foi ali que eu aprendi. Dali que entrei em um curso de teatro que era muito bom, o Macunaíma. Na Boca eu aprendi a atuar bastante pra cinema”.

​

Sua última participação em um longa do Carlão foi no Garotas do ABC, de 2003, o único filme que seu pai chegou a acompanhá-la na sessão. Nessa época, a Boca do Lixo já tinha perdido sua força e o diretor seguiu outro rumo. O filme é uma mistura de romance com drama e conta a história de algumas operárias da indústria têxtil de São Bernardo do Campo.

​

Vanessa não chegou a fazer grandes papéis na TV, porém não vê culpa da Boca nisso. Ela conta que preferiu não se envolver com a teledramaturgia, por considerar um ambiente muito competitivo. “A Boca foi uma escola, e foi super importante para a minha carreira, foi o começo. Fazer TV nunca foi o meu foco, porque eu estava bem no teatro e não queria ter que ir para o Rio de Janeiro, porque minhas coisas todas são aqui em São Paulo”.

 

Como sempre gostou de atuar, fez teatro por muito tempo e, simultaneamente, se dedicou aos comerciais e às pornochanchadas. Em 1991, com 28 anos, Vanessa se apresentou na peça “Oh! Calcutta!” onde conheceu Paulo Celestino Filho, que estava substituindo um ator. Os dois logo se apaixonaram e se casaram. Sempre foram muito unidos.

 

Ator, comediante e dublador. Conhecido por fazer as vozes de Morgan Freeman e Al Pacino em algumas produções, Paulo vem de uma família de artistas. É filho de um humorista e uma bailarina que se conheceram no teatro. Seu tio-avô era o cantor Vicente Celestino, um ítalo-brasileiro famoso na chamada época de ouro da música brasileira. Paulo dirigiu dublagens na empresa Dublavídeo junto com a esposa até 2017, quando sofreu um acidente no local de trabalho e acabou falecendo. Vanessa fala do marido com muito afeto, ainda tem um pesar no coração.

 

“Fez dois anos que ele faleceu. No começo foi bem difícil, porque era só ele e eu. Com o tempo eu fui superando, mas é óbvio que a saudade não passa nunca… mas você tem que seguir a sua vida. Mas não tem jeito, a saudade fica”.

 

Com três irmãos, Vanessa tem seis sobrinhos, uma afilhada que é seu xodó, filha de Paulo, e uma “filha peluda”, como gosta de chamar Donatela, a cadela vira-latas que está com ela há alguns anos.

 

Vanessa, atualmente com 56 anos, é uma mulher de riso fácil e olhos alegres, um pouco diferente daquela menina tímida dos filmes sensuais. Ainda mora em São Paulo, adora ler e continua vivendo uma vida focada em seu trabalho, agora como diretora de dublagens na Dublavídeo. Ela ainda é lembrada por sua atuação na pornochanchada e já participou de entrevistas, palestras e produções voltadas para a Boca do Lixo. Vanessa conhece a Argentina e o Uruguai, mas seu grande sonho não é visitar a Europa ou a América do Norte. Ela quer ir ao Japão. É apaixonada pela cultura e espera o dia em que vai poder conhecer o país.

Texto: Helena Tortorelli  e Roberta Calamari

Fotos: Acervo Vanessa Alves

EU SEI O QUE VOCÊ ASSISTIU NA SESSÃ0 PASSADA!

O brasileiro não gosta de assistir filmes nacionais? Uma pesquisa recente da Ancine (Agência Nacional do Cinema) revelou que, de 2009 a 2017, os 10 longas mais vistos no Brasil contam com 3 nacionais, estando no topo da lista Os 10 Mandamentos e Tropa de Elite 2. Podemos ver que existe um grande potencial das produções nacionais de alcançar o público desejado.

​

Por outro lado, o relatório Resultados do Cinema Brasileiro de 2019, divulgado pelo Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual, mostra que, até agora, as produções nacionais já levaram mais de 19 milhões de pessoas ao cinema, 6% a menos do que o mesmo período no ano passado. Enquanto isso, os títulos estrangeiros receberam um público de mais de 144 milhões, 16% a mais do que em 2018.

​

Então o que falta nas produções brasileiras para atrair mais público? Dados divulgados recentemente pela Ancine mostram que os filmes nacionais não seguem a tendência de preferência do público por gêneros, e por isso acabam perdendo espaço. Montamos o Cinema em Números para te explicar melhor como isso acontece.

Texto: Larissa Alcantara e Roberta Calamari

as segundas vou ao

cinema

Comprar o ingresso, uma pipoquinha, se acomodar em um ótimo lugar e se preparar para a emoção de ver mais um grande filme na telona. Para os amantes de cinema essa é uma das melhores sensações. Confira na crônica um pouquinho do sentimento de ir ao cinema!

​

​

​

​

​

​

​

​

​

​

​

​

​

​

​

​

Toda segunda-feira me programo para ir ao cinema, seja na sessão do meio dia ou na das dez da noite. Para mim, o cinema é um lugar de contemplação, onde posso recarregar minhas energias e sair por alguns minutos da realidade. Além disso, ainda aproveito a promoção de um cinema aqui perto de casa que cobra apenas 5 reais por ingresso. 

​

Quando chego na bilheteria, contente com a calmaria da segunda-feira, penso em qual filme irei assistir. Geralmente escolho algo leve, um romance ou uma comédia que me façam dar boas risadas ou que provoquem um quentinho no coração. Após decidir o filme, escolho minha poltrona, sempre na última fileira, para não correr o risco de ficar na frente de pessoas que adoram colocar o pé na cadeira dos outros. Compro a minha pipoca e entro na sala. As luzes se apagam e me preparo para mais um grande filme enquanto canto mentalmente o clássico “no escurinho do cinema” de Rita Lee.  

​

Nessa segunda, estou em uma sessão especial de filmes brasileiros, onde podemos escolher entre assistir desde uma comédia estrelada por Leandro Hassum, até um filme premiado com Fernanda Montenegro. Eu, acabei escolhendo nem um, nem outro. Fui assistir Tropa de Elite, contradizendo todos os meus princípios de um filme leve ou romântico para relaxar. 

​

Sou apaixonada por cinema brasileiro e acho incrível como certos trabalhos conseguem transmitir e representar tão bem a realidade. O filme que escolhi é violento e pode chegar até ser perturbador, mas me apresenta uma realidade que nunca cheguei perto de viver e passa uma mensagem importante para todos os brasileiros, que é a situação das favelas do nosso país. 

​

Deixo de pensar em mim e nos filmes para analisar as poucas pessoas que me acompanham naquela sala. Apenas eu e mais 4. Ao meu lado uma senhora que parecia ter se arrependido da escolha após ver tanto sangue e tiros. Mais a frente um casal de adolescentes que provavelmente só queriam aproveitar a sala quase vazia. E por último vejo um garoto, que parecia compartilhar da mesma emoção que eu e degustava cada segundo do filme com olhos atentos. 

​

Quando o filme acaba todos saímos da sala em silêncio, alguns de nós refletindo sobre o que acabamos de assistir. Para mim não foi o suficiente. Olho no relógio e vejo que dá tempo de assistir mais um. Compro o ingresso para “O Auto da Compadecida” e me preparo para boas risadas com o meu filme favorito. Pego mais uma pipoca e me preparo para mais emoções em frente a telinha. 

​

Todo dia é dia de ir ao cinema, o meu é segunda-feira.

CronicaGif.gif
Ticket cinema.png
Pipoquinha.png

Texto e GIF: Beatriz Cordeiro

QUANTO CUSTA ESSE FILME AÍ?

WhatsApp Image 2019-12-09 at 17.08_edite

Ana Paula Sousa

Quando surge a ideia de criar um filme, os primeiros pensamentos são sobre a escrita do roteiro, onde a história vai se passar, como serão os figurinos, a escolha dos atores, entre outras ideias ligadas a parte visual de todo projeto, mas nada sai do papel sem dinheiro. Você faz ideia de como se consegue dinheiro para produção de um filme?

 

Sempre existe a possibilidade de produzir com o próprio dinheiro, afinal nem toda produção precisa custar caro, porém se o filme for mais elaborado provavelmente vai necessitar de um investimento maior. Para auxiliar a produção cinematográfica e tirar muitos longas do papel, o Brasil conta com iniciativas governamentais que investem dinheiro nesses projetos. As principais são a Lei do audiovisual elaborada em 1993 e o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) criado em 2006. 

 

O funcionamento de ambas pode parecer meio complexo no início, então conversamos com a jornalista especializada em audiovisual e políticas culturais e doutora em Sociologia da Cultura pela Unicamp, Ana Paula Sousa, para entender mais sobre o assunto. Ana Paula acredita que é importante entender que a principal diferença entre as duas é o tipo de fomento. “A Lei do Audiovisual é um fomento direto, a decisão de onde investir está na mão das empresas e no Fundo Setorial do Audiovisual o fomento é indireto, a decisão parte de órgãos coordenados pelo governo”, explica.

 

Então para entender de maneira mais clara, vamos supor que um projeto opte por tentar conseguir dinheiro através da Lei do Audiovisual, após a aprovação do projeto pela Agência Nacional de Cinema (Ancine), que é a agência responsável por fiscalizar e regularizar o audiovisual no país, a produtora pode procurar ajuda de empresas para o financiamento. Essas empresas podem usar de 4% do imposto de renda, se forem pessoa jurídica e 6% caso seja pessoa física.

 

Porém, se a opção for o Fundo Setorial do Audiovisual para tornar o sonho do filme perfeito em realidade, os recursos irão vir da CONDECINE (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional) que é um tributo cobrado de todos os setores envolvidos com as produções audiovisuais, e a cobrança ocorre desde salas de cinemas até empresas telefônicas. Sendo assim, o dinheiro direcionado ao FSA vem das atividades que envolvem tudo presente no audiovisual e quem decide como as taxas arrecadadas serão investidas é um comitê gestor formado por órgãos coordenados pelo governo.

 

Por mais complexo e burocrático que possa ser, é muito importante visualizar  na história do cinema brasileiro, como as iniciativas governamentais são fundamentais para consolidar o cenário cinematográfico do país. Isso fica mais evidente quando analisamos uma queda dos filmes lançados entre o período de 1990 e 1993 com a ausência de empresas estatais, devido o fim da Empresa Brasileira de Filmes S.A (Embrafilme), que pudessem cuidar da regularização e elaboração de longa-metragens.

 

Além disso, existe a ANCINE que é uma parte muito importante de tudo isso,  surge em 2001 para regular, fomentar e fiscalizar as produções brasileiras. E ela que está por trás do funcionamento das iniciativas apresentadas acima e de seu funcionamento. Para entender melhor a importância dessa agência para o aumento dos filmes no país o Brasil em Cena preparou um gráfico.

Porquinho finalizado.png
Saco de dinheiro finalizado.png

3 cups

Blueberries

R$ 1.233.289.077,72

R$ 937.178.863,95

R$ 1.233.289.077,72

R$ 712.535.503,13

R$ 680.543.952,63

R$ 433.601.508,66

R$ 178.154.255,13

R$ 284.513.718,20

R$ 166.194.589,53

R$ 280.589.206,38

R$ 124.081.519,79

R$ 902.498.865,79

*Fontes: 

Agênca Nacional do Cinema- Ancine.gov.br

Texto: Larissa Alcantara

Gráfico: Beatriz Cordeiro

Bannerzinho filmes_edited.jpg

BRASIL EM CARTAZ

A JORNADA DA HEROÍNA

O nova-iorquino Joseph Campell era um professor universitário e pesquisador de mitologia e religião. Formou-se em Literatura Inglesa na Universidade de Columbia e ao dedicar sua carreira aos estudos de diferentes mitos e história 
notou que existia um fio condutor entre todas elas. Para exemplificar essa teoria Campbell criou o conceito de monomito, popularmente chamado de “A jornada do herói”. O escritor deu origem a esse conceito em seu livro “ O herói de mil faces” publicado em 1949, que ilustra diferentes etapas que o protagonista do filme segue do início ao fim.


É praticamente um conceito seguido por todas as histórias, sendo dividido em 12 etapas onde o personagem sai do mundo comum, entra em uma aventura e depois retorna mais sábio. Histórias famosas como O Senhor dos Anéis, Harry Potter, O Rei Leão, Cinderela e Star Wars seguem essas etapas.

 

E é possível observar essa jornada em um clássico do cinema naciona,l Lisbela e o prisioneiro, lançado em 2003 e baseado no livro de mesmo nome escrito por Osman Lins publicado em 1964. A trama mostra uma jovem apaixonada por cinema, vivida por Débora Falabella, que vê sua vida mudada ao apaixonar-se por um vigarista recém-chegado em sua cidade, personagem de Selton Mello. É a busca pelo amor que vai mover a jornada da heroína.

​

Confira abaixo a jornada do herói através da trajetória de Lisbela.


​

Texto: Larissa Alcantara

Infográfico: Larissa Alcantra, Thais Hachul e Wagner Giacomo Magni

o cinema e os seus gÊneros

Raiva, alegria, paixão, emoção… São inúmeros os sentimentos que o cinema pode provocar nas pessoas. E se você chegou até aqui, é porque gosta muito de cinema, acertei?

​

A seguir você vai conferir a série de vídeos “Claquetando”, que irá contar um pouco da história da comédia, da pornochanchada, das animações e do gênero policial. Além disso, você também vai conferir algumas dicas de filmes que você precisa assistir para conhecer melhor esses temas! 

​

Qual é seu gênero preferido? Para o crítico de cinema Franthiesco Ballerini, o brasileiro tende a gostar mais de comédias, até mesmo por uma questão histórica, pois desde a época da Família Real o teatro de comédia fazia sucesso e isso acabou sendo levado para a televisão e para o cinema. Mas e o seu, qual é?

​

Pega a pipoca e venha assistir a primeira edição do Claquetando com a gente!

Texto: Beatriz Cordeiro e Sophia Villanueva 

Claquetando - Gênero Comédia
01:53
Claquetando - Gênero Animação
01:57
Claquetando - Gênero Policial
01:40
Claquetando - Gênero Pornochanchada
01:49
banner-terror2.gif

O gênero de terror no cinema brasileiro sempre foi deixado à margem pela crítica e pelo público. A cineasta Mariana Zani conta que um dos principais motivos são os problemas na distribuição dos filmes, que muitas vezes não chegam nas salas de cinema tradicionais. 

​

Quando não haviam produções nacionais de terror, José Mojica Marins criou o personagem Zé do Caixão. Sua primeira aparição foi em 1964, no filme A Meia Noite Levarei sua Alma. No livro Autópsias do Horror (2001), Marcelo Marques de Melo conta que “Mojica é reconhecido como precursor do gore, tão em voga nas produções do gênero atualmente, e também na abordagem de tabus e temas extremos”.

​

Com o tempo, as produções passaram por algumas mudanças e ganharam mais notoriedade. Novos diretores de terror como Rodrigo Aragão, com As Fábulas Negras (2014) e Mar Negro (2013). Para o jornalista e diretor independente Edu Hentschel, as histórias, a estética e os efeitos especiais são algumas das mudanças que aconteceram durante os anos. Preparamos uma série de reportagens com cinco episódios para abordar um pouco mais sobre esse tema. Você consegue encarar?

Vampiro.png
Abobora.png
Caveirinha.png

Texto: Sophia Villanueva

Mais telas para elas

Carol Rodrigues.jpg
Camera.png

A produção da sétima arte ainda não é um lugar tão democrático quanto deveria, uma prova disso é o boletim “Raça e Gênero no Cinema Brasileiro”, realizado pelo GEMAA (Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e divulgado em 2017. No boletim foi possível detectar que o Brasil tem uma ausência de diretoras e roteiristas negras nas produções cinematográficas. Para a pesquisa foram analisados 498 filmes produzidos entre  1970 e 2016 com público superior a 500 mil espectadores, e apenas uma mulher negra foi identificada: Julciléa Telles. Ela divide o roteiro da pornochanchada A gostosa da gafieira (1981) com Roberto Machado.

​

Para entendermos um pouco dessa realidade entrevistamos Carol Rodrigues, diretora e roteirista negra e, como ela mesma se define, ‘periférica’. Em seus projetos, ela sempre tenta transmitir um pouco das próprias vivências e histórias para que mais pessoas possam se identificar. O primeiro curta que produziu, A Boneca e o Silêncio (2014), chegou a participar de diversos festivais nacionais e internacionais, e ganhou prêmios em São Paulo e Belo Horizonte, além da Polônia, Índia e Portugal. Em 2019, realizou o curta-metragem A felicidade delas, que estreou esse ano no 16 VIS Vienna Shorts (Austria). A produção recebeu menção honrosa no Festival Entretodos 12 (São Paulo), e foi exibido na Croácia, Ucrânia, Equador e Suécia, além de Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Atualmente está produzindo o seu primeiro longa-metragem de ficção, Criadas. Carol também já participou como roteirista na terceira e quarta temporada da série 3% da Netflix. Confira um pouco da entrevista realizada com a Carol sobre seus trabalhos e a importância da representatividade de mulheres negras no audiovisual brasileiro:

​
 

​

Brasil em Cena: Como começou o seu envolvimento com o cinema?

 

Carol Rodrigues: A paixão pelo cinema é antiga. Eu me apaixonei quando estava no Ensino Médio, lá pelos anos 2000. Conheci através de uma amiga que morava perto da região da Paulista, ela me apresentou o cinema alternativo. Como eu morava longe, na periferia da Zona Sul de São Paulo, demorava quase duas horas para conseguir chegar no centro. Por isso, achava que tinha que demorar mais no cinema do que o tempo que eu levava a chegar lá para valer a pena. Eu assistia de dois a três filmes seguidos. Em um ano, cheguei a assistir 200 filmes. Com isso, acabou se desenvolvendo em mim uma paixão imensa por cinema, por contar histórias. Isso por ver que até tinham outros lugares com histórias parecidas com a minha, da minha família, negra, indígena. Eu decidi fazer cinema, mas não achava que ia passar, então fiz Ciências Sociais na Unicamp. Eu achava que essa vontade de contar histórias, ter minhas narrativas na tela, iria cessar, mas não cessou. Então, com 24 anos, voltei para o cursinho, prestei vestibular e passei na USP em audiovisual.

Claquete.png

BC: Apesar de dirigir muitos projetos, na maioria dos seus trabalhos você é apenas roteirista. Por que opta mais por roteiro?

 

CR: Durante a faculdade de ciências sociais, acabei me envolvendo muito com militância política, e durante o curso de cinema fui retomando alguns temas. De alguma forma, o meu passado e a minha trajetória influenciaram diretamente na decisão de estar presente na sala de roteiro. Eu gosto muito de direção, só que existem as dificuldades do tempo. Porque trabalhar somente como diretora é uma carreira que demora um pouco, precisa ser construído. Eu tinha um certo desespero por contar histórias. Acho que a sala de roteiro é uma das coisas mais incríveis que existem, porque apesar de ser violenta e opressiva por vários momentos, também é uma forma de você estar debatendo a construção de vida desses personagens durante horas do seu dia. Acho isso altamente instigante.

BC: Alguns filmes seus chegaram a participar de festivais e receber prêmios, tanto nacionalmente quanto internacionalmente. Como é isso para você?

 

CR: É muito bom ter o seu trabalho reconhecido, principalmente porque ganhei mais prêmios de público, tanto no meu primeiro filme, A boneca e o silêncio, quanto no último, Mãe não chora. É muito legal ver que esse meu desejo de contar histórias para outras pessoas tem sido reconhecido, então fico muito feliz. Não é pra isso que eu faço, mas elas são a base fundamental para a gente continuar fazendo. Quando você é selecionado para um festival e o seu filme ganha um prêmio, significa que tem mais chances de conseguir viabilizar outros projetos. Significa que tem mais pontos na Ancine, e que pode pleitear orçamentos maiores. Então, no final das contas, a seleção dos festivais, além de estimular a circulação dos próprios filmes, também perpetua você como profissional na área.

BC: Na sua opinião, qual foi o seu trabalho mais significativo? 


CR: Olha, acho que foi o meu primeiro filme, A boneca em silêncio, principalmente pela trajetória dele. Como era um curta sobre aborto, tomei a iniciativa de ir atrás de várias exibições e fazer discussões após as sessões. Fui em escolas, ocupações, associações, sindicatos... Foi um desafio, porque o aborto ainda é um tabu aqui no Brasil e eu me coloquei um pouco na frente disso para levar as pauladas. Ouvi coisas bastante conservadoras. Por outro lado, tentei me colocar na escuta de muitas mulheres que queriam compartilhar histórias sobre o aborto que fizeram. Elas não tinham ninguém para falar sobre isso, se sentiam criminosas, clandestinas. Foi importante criar esses espaços de debates.

BC: Como você enxerga o panorama e a representatividade de mulheres negras no cenário audiovisual brasileiro atualmente?

 

CR: Ainda é insuficiente, mas melhorou muito. Eu acho que hoje a gente tem noção de que estamos numa primavera negra no cinema brasileiro, porque temos muito mais realizadores negros dentro das nossas produções. A representação ainda é insuficiente para o tamanho da população brasileira, para a diversidade e multiplicidade de vozes que precisamos evidenciar. Então eu acho que estamos melhor no panorama de um número maior de produções, estamos circulando mais em festivais. Mas ainda não só é insuficiente perto do número de mulheres pretas e pardas do Brasil, como também não estamos vivendo uma democracia no acesso aos recursos para realizar filmes e projetos maiores e mais ambiciosos. Quando estamos discutindo a permanência da Ancine, ou o que quer que seja em termos de políticas públicas, entendemos que precisamos rediscutir as políticas de acesso a qualquer lugar.

BC: Existem iniciativas para que exista uma presença cada vez maior de mulheres negras?

 

CR: Há iniciativas nos coletivos que têm se formado com foco no audiovisual que, ao ver os realizadores pretos periféricos, se sentem encorajados a contar as próprias histórias. As cotas foram definitivamente transformadoras e os editais estão mais democráticos. Os dois últimos filmes que fiz foram por meio do edital da SPCine, que permitiu uma política consciente, políticas afirmativas para a população negra, trans, cadeirante e indígena. São esses filmes que estão circulando nos festivais. Isso mostra que, distribuindo melhor os recursos de acesso, você possibilita que outras vozes mais potentes, mais interessantes, venham a ser concretizadas em um filme. Outra iniciativa são os canais na internet, que têm muitas mulheres negras influencers que acabam estimulando esse tipo de ação. 

BC: Tem algum setor do audiovisual que a presença de mulheres negras é ainda mais restrito?

 

CR: Eu acho que todos os  setores ainda são insuficientes, mas aos grandes orçamentos definitivamente ainda não temos acesso. Precisamos discutir o colorismo no Brasil e a gente tem que debater uma forma de aumentar o acesso substancial às mulheres pretas, porque quando falamos de acesso a esses lugares, com orçamento e etc, não é só para realizar o filme, mas a profissionalização. Eu ainda acho que o acesso para fazer curtas não é suficiente, mas é maior do que o de séries e longas. Basicamente se reproduz a própria lógica do mercado de trabalho. Os postos de maiores salários são menos ocupados por mulheres negras , o subempregos e os postos mais baixos são mais ocupados. 

BC: Você tem algum sonho, projeto que você queira realizar?


CR: Tenho vários projetos. Agora estou trabalhando no meu longa Criadas, sobre duas primas que voltam a se encontrar depois de anos. Uma é parda e a outra é preta, elas voltam a se encontrar na casa em que foram criadas juntas e trazem o passado. Tenho também o projeto de série que estou discutindo com um amigo meu, Helton de Almeida, e junto, tem um outro projeto de longa que eu estou fazendo. A gente não pode parar.

Entrevista: Helena Tortorelli

Foto: Acervo Carol Rodrigues

O cineasta do povo

O cinema nacional, assim como o teatro e a música, é de extrema importância para a definição da identidade cultural do país. Desde obras de grande porte, como o vencedor do Globo de Ouro Central do Brasil (1998), de Walter Salles, até as produções menores do chamado cinema independente, como Mal Nosso (2019), de Samuel Galli - que já participou de mais de 30 festivais internacionais.
 
De acordo com dados da Ancine, em 2016 o Brasil teve um recorde de produção cinematográfica, mas, por outro lado, o espaço de exibição de produções autorais é cada vez menor. De 143 filmes independentes lançados naquele ano, 66% tiveram menos de 10 mil espectadores.
 
Para trabalhar com cinema independente é muito importante ter paciência, disposição e nunca aceitar um “não” como resposta, como nos ensina Milton Santos. O cartazista, nascido na Bahia, veio a São Paulo para seguir o seu sonho: trabalhar com cinema. Ele é diretor, produtor, roteirista e ator. Hoje em dia, mora na Vila São Pedro, um bairro simples de São Bernardo do Campo que utiliza de cenário para contar suas histórias. Conheça um pouco mais sobre Milton no documentário O Cineasta do Povo.

 

Texto: Roberta Calamari

Já que o assunto são diretores de cinema, descubra em nosso teste qual cineasta brasileiro você seria! 

tijolos.jpg
IMG_6508.GIF

A CONSTRUÇÃO DE

UM CINEASTA

Escuta ai!

Carrinho de cimento.png

As duas horas da tarde, Maria Auxiliadora, a Dorinha, 55, senta em frente a sua máquina de costura, enquanto fica de olho à TV que está ao seu lado, uma missão praticamente impossível diante do barulho que vem das ruas. Já o companheiro Miguel Batista não se incomoda tanto com os ruídos.

​

Na sala da casa, mantém a coleção de suas câmeras como um registro das lembranças daquilo que o retirou do anonimato. Orgulhoso da trajetória no cinema, ele guardou dentro de uma pasta tudo que pode comprovar: fotos de viagem pela América do Sul, registro de prêmios, papéis de eventos e cordéis onde escreve sua visão sobre a sétima arte. 

​

Miguel acredita que toda essa sua personalidade artística é uma herança da mãe.  “Minha mãe que gostava mais de cultura e essa coisa de estudar”. Mas nem sempre ele seguiu por esse caminho. Com 71 anos, ele carrega uma longa trajetória.

​

Ao sair de Limoeiro do Norte aos 25 anos, uma cidade no Ceará, assume a missão de viver a vida como uma jornada única. Morou por vinte anos no Rio de Janeiro e, durante a década de 70 e 80, trabalhou como segurança de um condomínio de luxo, onde, entre os moradores, era possível encontrar figuras únicas da cultura nacional como Tom Jobim.

​

Depois de vinte anos na cidade maravilhosa, Miguel decidiu que iria para Salvador na Bahia. O desejo surgiu na década de 80, a  motivação surgiu de uma uma vontade de tornar-se padre, mas o período no celibato não durou muito.“Por isso que os padres estão esquizofrênicos, porque eles tentam explicar o nada”, confessa. Essa visão dele se construiu com os estudos diários de teologia, onde ele deixou de enxergar sentido em tudo que era empregado a ele para tornar-se padre. No fim a decisão de ir estudar teologia na Universidade Católica de Salvador trouxe fim a sua caminhada pela fé.

​

Mesmo que seus planos perante a igreja tenham dado errado, foi durante seu período de estudo de teologia que o homem, em meio ao seu desejo de ser padre, conheceu Dorinha, mas só depois de vinte anos que foram finalmente ficar juntos. “Dorinha me sequestrou do seminário”, comenta. Em 1999 ele chega em Diadema, na região metropolitana de São Paulo, onde  iniciou seu envolvimento com o cinema. Foi em no Centro Cultural Promissão que ele atuou pela primeira vez no filme Sobreviver.

Tijolos.png

Fala aí, Miguel!

“Não importa a situação financeira, a profissão e nem a idade, o importante é voar e o homem só é feliz quando constrói e voa”

- Miguel Batista, pedreiro cineasta

Fala aí, Miguel!

 

 

Mas a fama de cineasta não garante a vida e Miguel trabalha de pedreiro de segunda a sexta. Chega a mostrar suas mãos com marcas do trabalho do dia anterior mas, mesmo cansado, ele reserva o período da noite para desenvolver seu intelecto estudando diferentes línguas. Fluente em inglês, espanhol e esperanto, estuda grego no momento. O homem de riso fácil conhece outra língua o Krusmantismo. “O Krusmanta é uma esquizofrenia minha”, brinca ele.

​

A língua originada por ele faz parte de um universo maior de sua criação. O pedreiro criou uma religião que carrega o mesmo nome da língua para ser usada em um filme ficcional. A ideia é fazer uma crítica aos templos religiosos. “Ele gosta de provocar as pessoas”, revela Dorinha. “Ele escreveu no muro ‘Vem o novo templo Krusmantino’, e muitas pessoas vêm perguntar onde era essa igreja, mas é tudo da cabeça dele”, conta a esposa rindo.

​

O Krusmantismo foi uma válvula de escape para o ceticismo criado após a desilusão com a igreja, mas o respeito de Miguel pela crença alheia é maior do que a vontade de comprovar seu ponto de vista. Isso fica claro ao observar a presença de figuras santas na casa que pertencem à esposa. “Como eu posso dizer que a religião da Dorinha está errada? Eu não posso falar isso, pra mim não vale, mas pra ela tem um valor”, declara o pedreiro sobre a religião que abandonou mas que é praticada pela esposa.

​

Junto com Krusmanta ele dirigiu mais dois filmes e teve participação em 20 produções.  O pedreiro demonstra um gosto pela criação em geral e faz tudo o que precisa: atua, dirige, escreve roteiro, auxilia na produção e até compõe trilha sonora. Foi no filme Cinema Dilacerado, um filme sobre a história cinematográfica de Diadema, que Miguel trouxe versos para representar a cultura nordestina presente na cidade. O interesse dele o levou a se especializar através de cursos e todo esforço sempre vem com recompensa, o filme Pisadas Marcantes ao qual ajudou a dar vida ganhou um prêmio na I Mostra de Artes de Diadema.

​

Mesmo com tantos trabalhos, três prêmios em sua trajetória cinematográfica e uma premiação por seu trabalho como cordelista, Miguel não demonstra nenhum deslumbre ou vontade de renegar a realidade do seu dia a dia. No fim da tarde, o morador do bairro do Jardim Marilene mostra, com o mesmo orgulho que exibiu seus prêmios, um cantinho feito por ele que recorda a sua essência. A horta verdinha e bem cuidada que traz o passado de menino que cresceu correndo pela fazenda do pai.

Texto: Larissa Alcantara e Bárbara Lira

Fotos: Bárbara Lira

Encontre seu cineclube

Cineclubes são espaços onde a relação do espectador com o filme vai além do assistir. De acordo com a Cecisp (Associação Centro Cineclubista de São Paulo), os Cineclubes são espaços sem fins lucrativos, onde o mais importante é estimular os laços comunitários e a cidadania, além de incentivar o debate sobre a sétima arte.

 

Pensando nisso, montamos um mapa com 40 endereços na Região Metropolitana de São Paulo que oferecem obras cinematográficas gratuitamente, assim como discussões, palestras e muito mais! Separamos também algumas salas de cinema que exibem filmes a preços populares, com a intenção de levar essa experiência onde muitas vezes o acesso é limitado.

 

O mapa contém endereços e links que você pode acessar para obter mais informações.

Texto: Helena Tortorelli e Roberta Calamari

SOB DIREÇÃO

bárbara

lira

Queria ser corajosa como

a Lisbela.

larissa

alcantara

Chora toda vez que assiste Meu pé de Laranja Lima.

SOPHIA.jpeg

sophia

villanueva

Se diverte muito com as comédias brasileiras!

lelele.png

beatriz cordeiro

Apaixonada por

O Auto da Compadecida! 

murillo

mendes

Apaixonado pelo suspense

e terror brasileiro.

TAYNA.jpeg

tayna

balieiro

Não perde uma comédia

romântica.

HELENA.JPEG

helena

tortorelli

Ama todos os filmes com a Fernanda Montenegro!

roberta

calamari

Sabe todas as falas de Minha Mãe é uma Peça e Tropa de Elite.

thais

hachul

Ama uma boa comédia!

Design e diagramação do site: Beatriz Cordeiro, Tayna Balieiro e Thais Hachul

Todos os direitos reservados. Brasil em Cena, 2019.

bottom of page